A resiliência e o brincar

A resiliência e o brincar

“Resiliência é a capacidade de desempenhar-se bem, de uma forma socialmente aceitável, apesar de alguma forma de tensão e de adversidade, que fazem parte do alto risco de circunstâncias externas negativas.” Dr. Jan Van Gils

O conceito foi construído por educadores de base, educadores de rua ou educadores infantis, quando refletiram sobre as razões que levaram crianças em situação de vulnerabilidade e risco a desenvolver personalidades muito diferentes, sendo umas, mais resilientes que outras. Elencaram então alguns fundamentos que associamos agora ao brincar.

Fundamentos da resiliência e o brincar

1. Aceitação incondicional

Todas as crianças precisam de pelo menos uma pessoa que as aceite totalmente, incondicionalmente. A aceitação incondicional é recíproca. Crianças e adultos precisam sentir que nasceram um para o outro e que pertencem à mesma rede.

Crianças e adultos, brincando juntos, são uma expressão de aceitação incondicional: estão celebrando e desenvolvendo seu pertencimento.

2. Descoberta do significado

Crianças precisam ter experiências em que elas possam descobrir significado: o significado de suas vidas, o significado de viver neste mundo, o significado das relações interpessoais.

A descoberta do significado pode ser feita de várias maneiras, mas uma das mais importantes é BRINCAR, quando a criança descobre a sí mesma, as outras pessoas e o mundo. Brincar ajuda a criança a construir o seu projeto de vida.

Correndo, escalando e lutando elas comparam a si próprias com outras pessoas e as suas experiências e tentam mudar seus limites. Brincando, as crianças estão descobrindo alguma ordem, sentido e significado em suas vidas.

Esta é a razão pela qual, brincar é uma atividade muito séria para elas.

3. Habilidades sociais

São as habilidades que as pessoas precisam para organizar suas vidas e atingir algum objetivo. Nas brincadeiras as crianças desenvolvem habilidades sociais como: organizar sua agenda, negociar com outros sobre o que fazer, construir relações sociais, aprender a dominar a frustração quando perdem o jogo etc.

Brincar é parte da educação formal e da educação não formal ou educação para a vida, contribuindo substancialmente para o desenvolvimento da resiliência.

4. Humor

O Humor significa que se pode lidar com a imperfeição, integrar aspectos de uma realidade desagradável no próprio projeto de vida. É uma forma de ver as coisas no contexto mais amplo, relacionando-as com outras experiências.

Existe uma forte relação entre HUMOR e BRINCAR: a brincadeira das crianças não é voltada para o real, mesmo que não haja atividade mais séria do que brincar. Enquanto brincam, elas podem fazer coisas absurdas, contar histórias inconsistentes, comportar-se incoerentemente.

O humor faz da vida uma brincadeira!

5. Auto-estima

A auto-estima é o sentimento de estar bem consigo mesmo. Há uma forte relação entre a aceitação incondicional mútua, a capacidade de descobrir significado e a auto-estima. Está relacionada à opinião que cada um tem sobre si mesmo e ao mesmo tempo, á opinião dos outros.

Enquanto brincam as crianças recebem continuamente, informações sobre quem são elas; avaliam umas às outras e a si próprias. Portanto estão desenvolvendo mais ou menos a sua auto-estima.

Resiliência e Cultura de Paz

Brincar e Resiliência têm uma relação muito próxima quando abordamos a questão da prevenção da violência, uma vez que, as pesquisas comprovam, as pessoas resilientes buscam constantemente a realização dos seus sonhos, não cultivando mágoas ou rancores de outras pessoas e situações, que lhes são ou foram adversas ou geraram frustrações. Por essas razões podemos afirmar que brincar é um caminho seguro para uma cultura de paz!

Marilena Flores Martins

Fonte: Texto adaptado – Senado Federal