Experiências de brincar e imaginar

Experiências de brincar e imaginar

Estudos feitos na Antropologia, Sociologia, Psicologia, Lingüística e outras áreas do conhecimento têm apontado que brincar é o principal modo de expressão da infância, a ferramenta por excelência para a criança aprender a viver, revolucionar seu desenvolvimento e criar cultura. A criança teria na brincadeira que faz com outra criança, ou sozinha, oportunidade para usar seus recursos para explorar o mundo, ampliar sua percepção sobre ele e sobre si mesma, organizar seu pensamento e trabalhar seus afetos, sua capacidade de ter iniciativa e ser sensível a cada situação.

Em especial o brincar de faz-de-conta é apontado por diferentes pesquisadores como ligado à promoção da capacidade de imaginar e criar pela criança.

Tais estudos têm ainda revelado que a brincadeira é uma atividade que evoluiu com a transformação sócio-histórica das comunidades humanas e continua a se modificar nas condições concretas de vida das populações, em particular da população infantil em nossa sociedade. Nesta, ao lado de uma ampliação fantástica de brinquedos fabricados e tornados objetos de desejo de consumo das crianças, há um crescente individualismo que se reflete sobre elas e o seu brincar. Nesse quadro preocupante, a ser considerado com atenção pelas equipes de Educação infantil quando da elaboração de seu projeto pedagógico, a educação infantil muito pode fazer no sentido de re-significar o brincar da criança.

Brincar é uma atividade aprendida na cultura que possibilita que as crianças se constituam como sujeitos em um ambiente em contínua mudança, onde ocorre constante recriação de significados, condição para a construção por elas de uma cultura de pares, conjunto relativamente estável de rotinas, artefatos, valores e interesses que as crianças produzem e partilham na interação com companheiros de idade. Ao brincar com eles, as crianças produzem ações em contextos sócio-histórico-culturais concretos que asseguram a seus integrantes, não só um conhecimento comum, mas a segurança de pertencer a um grupo e partilhar da identidade que o mesmo confere a seus membros.

Garantir um espaço de brincar nas escolas de educação infantil deve assegurar a educação numa perspectiva criadora, em que a brincadeira possibilite o estabelecimento de formas de relação com o outro, de apropriação e produção de cultura, do exercício da decisão e da criação. Sempre que as crianças mostram interesse em brincar somente entre elas, o professor tem uma excelente oportunidade para observar e registrar como elas se organizam no grupo, suas competências na brincadeira, ou mesmo para observar uma criança que esteja lhe chamando a atenção.

Jogos partilhados podem ser observados mesmo em bebês, quando observam e imitam os movimentos dos parceiros mais experientes através de gestos corporais e vocais, e também quando interagem com parceiros da mesma idade. Desde cedo os bebês apreciam brincar de esconde-esconde com suas mães, ou com as pessoas que lhes cuidam e com quem estabelecem um vínculo afetivo. Esta atividade interativa lhes possibilita assumir diferentes posições nos jogos em que participam (como a de quem procura alguém e a de quem é procurado, por exemplo) em uma atividade voltada a garantir prazer ao bebê e a seu parceiro.

Os modos de brincar com o outro se transformam conforme o parceiro e a situação, modificando-se com a idade e a experiência de vida. O controle do próprio corpo e de seus movimentos e expressões no manuseio de objetos, na exploração das salas, na tomada de um objeto ou sua entrega para um parceiro, parece motivar os bebês em suas brincadeiras iniciais. Logo a brincadeira das crianças pequenas orienta-se para imitar os colegas, repetir seus gestos e vocalizações, o que lhes exige observação atenta e ajuste corporal e vocal. Essa atividade se amplia e as crianças se voltam para outras formas de brincar.

As brincadeiras tradicionais transmitidas de geração em geração são muito apreciadas pelas crianças e constituem importante herança cultural. Algumas brincadeiras das quais as crianças gostavam de participar antigamente continuam presentes ainda hoje: esconde-esconde, cabra-cega, jogos com pião, fantoche, balanço, boneca, pula-sela, amarelinha, jogos com bola, corda, gincana, jogos de pontaria ou de precisão, jogos de adivinhação, brincadeiras de outras tradições culturais, etc. Seu caráter previsível possibilita que seus enredos sejam desempenhados com razoável precisão por pessoas de diferentes idades.

Nas brincadeiras de faz-de-conta, muitas vezes chamadas de jogos dramáticos, as crianças aprendem a reproduzir com mais detalhes gestos e as falas de pessoas em certos papéis sociais ou de personagens de filmes ou de histórias lidas, ou inventam roteiros alimentados por sua fantasia, utilizando-se de diferentes linguagens: corporal, musical, verbal.

Fonte: Orientações Curriculares para Educação Infantil.