Adulto tem obrigação de liberar brincadeira

Adulto tem obrigação de liberar brincadeira

“Acho que você deveria vivenciar o olhar do brincar, basta passar uns 15 minutos aqui”, propôs a educadora Thereza Pagani quando questionada sobre a importância do brincar na Tearte, escola de educação infantil que dirige em São Paulo. Em resposta à reportagem, ela disse: “Uma criança sentadinha na areia, na terra, na grama, brincando com um gravetinho, um bichinho, um paninho ou com um pintinho no colo está tendo um espaço dela com ela mesmo, com a natureza e com os brinquedos que é muito importante para a sua saúde mental”.

Aos 71 anos, dona “Terezita”, como é conhecida, dirige sua escola a partir da convicção de que a criança, brincando, aprende. Aprende a decodificar os códigos da leitura e da escrita e também, diz ela, a lidar com os animais, com a natureza e com ela mesma sem medos, o que lhe garante total e absoluta segurança.

A cultura do brincar está tão em baixa entre os adultos que existe até uma ONG internacional, presente em 30 países, para defender os direitos da criança e do adolescente de exercer essa atividade no seu cotidiano.

E mais: a bandeira não é nova, a IPA – International Play Rights Association dedica-se à defesa do direito de brincar há 41 anos. A representante por aqui, a IPA Brasil – Associação Brasileira pelo Direito de Brincar, foi fundada em 1997. Reúne profissionais variados, como arquitetos, médicos e pedagogos, que contribuem com o seu conhecimento na luta pelo direito de brincar.

É provável que você esteja considerando surrealista a defesa de uma atividade absolutamente natural e espontânea na vida das crianças. Mas a realidade não é bem assim.

Além de situações especiais, em que a criança, vítima do trabalho infantil ou de guerras, por exemplo, é privada do lazer, o conceito de brincar hoje é equivocado, e a importância da atividade, subestimada pelo adulto.

“Hoje, o lúdico, infelizmente, está muito submetido a esses “frankensteins” mecânicos que as pessoas chamam de brinquedo”, diz o psicanalista Paulo Alexandre Cordeiro de Vasconcelos, do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação da USP. Para ele, o ato de brincar evoluiu de forma muito negativa. “O conceito foi deturpado. O homem está distante do papel primordial da brincadeira, que é conectar as pessoas entre si e com o mundo.”

“Os adultos não valorizam o brinquedo, dão quase por obrigação, e as crianças sentem que eles estão dando aquilo para se verem livres delas. Alguns pais dizem: “Olha, paguei caro por isso, vê se brinca mesmo’”, critica a pedagoga e presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas, Nylse Cunha, que defende as brinquedotecas como um lugar onde não há expectativa de desempenho durante o brincar, ao contrário do que ocorre na pré-escola ou em casa. “Na brinquedoteca, se a criança quiser usar o brinquedo seguindo as regras, ela usa, se quiser pôr na cabeça e usar como chapéu, põe.”

A liberdade de brincar de forma criativa e espontânea tem sido impedida pelos adultos. A brincadeira que a criança inventa e que faz quando quer e pelo tempo que quiser não existe mais. E isso porque o adulto tem de estar sempre organizando. E mais: para o bem dele, e não da criança, diz a psicóloga e colunista do Equilíbrio Rosely Sayão.

Na floresta, é um pouco diferente. A arte-educadora Renata Meirelles, que fez um trabalho em 15 comunidades amazônicas, conhecendo e promovendo o intercâmbio das brincadeiras, conta que a diversão começa na construção do brinquedo. A matéria-prima é procurada no mato, e eles vão correndo, sobem em árvore, pulam no rio.

Fonte: Folha de São Paulo

Texto adaptado para divulgação no site da ABBri