Brinquedo Comum, brincadeira adaptada

Brinquedo Comum, brincadeira adaptada

Crianças portadoras de deficiências podem brincar, a princípio, com quase qualquer brinquedo comum. Entretanto, a escolha de objetos com algumas características específicas, adaptações ou intervenções do adulto na brincadeira podem propiciar uma experiência lúdica mais proveitosa.

“O brinquedo da criança com deficiência física não precisa ser diferente daquele que o irmão, o primo ou o vizinho tem”, diz Lina Silva Borges Santos, coordenadora da terapia ocupacional infantil da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). “Isso ajuda na auto-estima, porque a criança identifica os seus brinquedos com aqueles que estão em outros lugares.”

“Os brinquedos não são especiais, mas a seleção deles é”, diz a pedagoga Nylse Cunha, que trabalha com educação de portadores de necessidades especiais. “O brinquedo deve ser compatível com as possibilidades da criança. A seleção deve ser cuidadosa, para não provocar frustração.”

Portanto, é fundamental conhecer a deficiência que a criança porta. “Devem-se considerar, mais que a idade, suas capacidades motoras, cognitivas e sensoriais e seus interesses”, diz a terapeuta ocupacional Carla Cilene Baptista da Silva, doutora em psicologia pela USP.

Desenvolvedores de brinquedos para deficientes procuram integrar todas as crianças na brincadeira. A professora Marta Dischinger, da faculdade de arquitetura da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), aplica isso em uma disciplina optativa que ministra. Nela, projetam-se brinquedos para deficientes, para reabilitação ou inclusão. “Nós entramos em contato com as crianças e os terapeutas e, a partir disso, desenvolvemos os produtos”, conta.

Para eles, os brinquedos são projetados para várias deficiências e também para não-deficientes. O jogo da memória em alto relevo, por exemplo, foi desenhado para que crianças com deficiência visual possam jogar com crianças com visão normal. “Cada um joga de acordo com o que pode”, diz Dischinger.

Segundo Silva, crianças com deficiência mental moderada pode brincar com jogos de tabuleiro ou de regras. “Entretanto, elas podem precisar de mais tempo para compreender as regras ou de que se facilitem as regras originais.”

O ambiente em que a criança brinca também oferece atenção especial. “Para deficientes mentais, o lugar deve ser tranqüilo, sem estímulos exagerados”, aconselha Fátima Amatucci, coordenadora da área de educação da Apae-SP (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo).

Já para deficientes físicos, o foco é a capacidade de manipulação dos objetos. Pode ser necessário adequar espaço físico e posicionamento da criança, bem como os próprios brinquedos. Algumas crianças têm dificuldade de segurar objetos. Para elas, “é melhor dar brinquedos grandes, sem peças pequenas”, diz Silva.

Para crianças cegas, os brinquedos devem estimular outros sentidos, que não sejam a visão: tato, olfato, audição, paladar. “80% de tudo o que uma criança aprende é através da visão. A criança cega não tem isso. Então é preciso dar acesso maior ao número de objetos do ambiente, principalmente os que ela não sabe para que servem”, diz Mara Siaulys, presidente da Laramara (Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual).

A partir de sua experiência com crianças cegas, Mara criou 109 brinquedos, sendo que uma parte são adaptações de brinquedos já existentes e outra são produtos especificamente para cegos (em braille). O restante é para todas as crianças. “Os brinquedos servem para todas as crianças, pois socialização e inclusão são nossos primeiros objetivos.”

Fonte: Folha de São Paulo

Texto adaptado para divulgação no site da ABBri