Por que Brinquedoteca?

Por que Brinquedoteca?

Uma criança de cinco anos olha, absorta e fascinada, uma outra rodar pião. Acompanha os movimentos com encantamento e ternura e, após alguns minutos, pede o pião emprestado e exercita. Minutos depois agradece e agradece-se e diz a si mesma: – Agora já sei ! Aprendi.

Efetivamente aprendeu e, portanto, jamais esquecerá. Poderá com mais treino ganhar destreza e dependendo de suas habilidade tornar-se ou não admirável jogadora, mas o fato inquestionável é que ao olhar e exercitar a experiência, efetivamente aprendeu. O que ocorre no cérebro de uma pessoa quando esta aprende? Que expansões de redes neurais e sinapses determinam porque aprendemos ou não ? O brinquedo possui alguma relação nessa expansão?. Caminhemos por partes. O meio ambiente vive a cada instante mandando imenso volume de informações ao cérebro e, muitas destas, constituem os estímulos.

Ao receber essas informações ? sonoras, auditivas, visuais, cinestésicas e outras ? o cérebro se agita e as transforma em sensações. A sensação constitui processo ainda muito incompleto e está distante da aprendizagem, mas representa um primeiro passo. Prosseguindo em sua ?usinagem? o cérebro vai rapidamente buscando atribuir significado as sensações e as transforma em percepções. Uma percepção é uma sensação com significado e simboliza caminho à aprendizagem, que se concretizará quando a memória e a linguagem entrarem em ação. A memória buscando na percepção que chega idéias similares para com elas interagir e a linguagem, muitas vezes interior, para verbalizar e dar corpo a pensamentos solidificando essas associações. Nesse instante ocorre o momento mágico do ?Ah… agora já sei? e, portanto, da aprendizagem. Sem ela o ser humano não seria o que é e a humanidade se identificaria as amebas que alcançam sensações mas não as evolui. Aprender sintetiza o próprio sentido da vida e quando a aprendizagem deixa de existir caracteriza-se a vida vegetativa. Todo cérebro humano razoavelmente saudável apreende, mas a intensidade e persistência com que este fenômeno ocorre depende muito dos agentes facilitadores da assimilação. Um desses agentes é a motivação e esta por sua vez é movida pela curiosidade. Outro agente importante e a satisfação pelo sucesso, o auto-elogio ou elogio de outros pelo acerto e certamente também contribui o ambiente acolhedor e a empatia do que se aprende, com quem ensina. No caso da criança descrita ao alto o meio ambiente simbolizou-se pelo entorno e outro que jogava, sua curiosidade levou-a a buscar sensações e seu cérebro foi fazendo o restante, até a magia infinita de sua descoberta, que o treino aprimorará. Fica então a pergunta: – O que o brinquedo tem a ver com a aprendizagem ? Onde entram as brinquedotecas nessa história ? Se houvesse palavra única para responder, essa palavra seria ?tudo?. Houve aprendizagem porque os agentes facilitadores estavam presentes, porque os estímulos do ambiente foram satisfatórios, porque a curiosidade levou-a ao encanto e esta fez da usina cerebral, ferramenta da memória e da linguagem transformando percepções em assimilação. Tudo bem nessa reflexão? Então imagine a cena novamente, agora sem o pião ? Sem ele, nosso personagem não teria motivação, curiosidade, empenho pelo êxito; sem ele seu cérebro buscaria outros estímulos vagos para construir outras sensações… Dirá você: Não.

Se não houvesse o pião talvez nosso personagem cruzasse com alguém saltando amarelinha, jogando bolinhas de gude, brincando de pegador, empinando papagaio e, pronto, novos estímulos seriam repostos. É verdade; então se refaça a pergunta e imagine a cena sem o brinquedo, sem o jogo ? Nosso personagem caminharia sem encanto, seu passeio seria sem ternura, seu cérebro estimulado sabe Deus lá com o que… Não é fácil saber o que a humanidade faria com a vida sem a imensa gula pela satisfação do jogar! Será que é preciso falar da importância de brinquedotecas?

Celso Antunes

Fonte: Espaço Morumbi

Abril/2008