O Brinquedista e a Dimensão Lúdica

O Brinquedista e a Dimensão Lúdica

O conjunto de ações do brinquedista é voltado para a criação das melhores condições para um brincar de qualidade: ambiente atrativo e acolhimento afetuoso; mas o que diferencia o seu comportamento de outros adultos, é a visão do brincar que ele transmite ao longo do seu desempenho, valorizando a atividade como um todo, sempre baseada no prazer da criança. Se o jogo é abandonado, não vai forçar a criança a termina-lo. Não emite julgamento sobre a escolha que for feita: brincar com a Barbie não é menos importante do que jogar um dominó. Desta forma, o bom brinquedo não pode ser definido. O brinquedista situa-se em relação a outras dimensões alem da aprendizagem.

Na Brinquedoteca, a dimensão lúdica deve ser privilegiada e, para que isso aconteça, o brinquedista precisa ter a compreensão do fenômeno que extrapola o brincar e que não tem necessariamente, que provocar aprendizagem. Sua ligação com a estimulação do desenvolvimento é tão global que não pode ser considerada por aspectos específicos. Tem a ver com alma, com poesia, com emoção, com amor, não como sentimento de um para com outro, mas como sensação, como uma forma respiração que é absorção da experiência que está sendo vivida, como satisfação de um anseio existencial.

A maioria das definições sobre o que é BRINCAR, é reduzida, não alcança todas as suas possibilidades, não contempla sua transcendência; são simplórias na sua preconceituosa visão científica. Sabemos que a criança brincando aprende, sabemos que desenvolve potencialidades, sabemos como constrói conhecimentos no seu brincar mas, é hora de lembrar que, a Brinquedoteca não é uma sala de aula. A ludicidade gera um tipo especial de convivência.

Antes de poder ser brinquedista, o candidato tem um longo caminho a percorrer, que começa sobre uma reflexão profunda sobre a abrangência do brincar. Tentando explica-lo, tentando descrever os horizontes que ele atinge, chegaremos a aspectos difíceis de definir conceitualmente. Esbarraremos em limites que, como a margem de um rio, nos fazem perceber que existe alguma coisa do outro lado. É preciso tentar explicar o brincar para perceber sua abrangência e, para fazer isto corretamente, é preciso ter alma de poeta. Terminamos então com um poema.Do poeta português Miguel Torga,

Brinquedo

Foi um sonho que eu tive
Era uma grande estrela de papel
Um cordel
E um menino com uma pipa

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Nylse Cunha

Bibliografia

  • Brougere, Gilles e Roucus ,Nathalie – Universidade de Paris 13 – 2003
  • Le metier de ludothecaire – Pesquisa coordenada por Gilles Brougere &
  • Nathalie Roucus , Universidade de Paris 13 – 2003