Brinquedo no Hospital

Brinquedo no Hospital

Brinquedoteca eleva adesão de criança a tratamento médico

Agência Câmara – Maria Clarice Dias e Simone Salles

Deputada Luíza Erundina é autora do projeto que originou a lei das brinquedotecas

Crianças com câncer que freqüentaram briquedotecas no Instituto de Oncologia Pediátrica (SP), em 2001, apresentaram índice de 100% de adesão ao tratamento, contra 29% das que foram submetidas a tratamento dez anos antes, quando os espaços de brincadeira não existiam nos hospitais. A informação foi dada pelo médico pediatra Dráuzio Viegas, professor da Faculdade de Medicina do ABC, durante o seminário “Brinquedoteca: A Importância do Brinquedo na Saúde e na Educação”.

O evento, promovido nesta quarta-feira pela Comissão de Legislação Participativa no auditório do Interlegis, debateu os efeitos da Lei 1104/05, aprovada no último mês de março, que torna obrigatória a instalação de espaços para brincadeira nos hospitais públicos e privados com atendimento pediátrico de internação. A lei teve origem em projeto de autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP). “O que falta neste Congresso é uma brinquedoteca”, disse a parlamentar.

 

Ato de sobrevivência

Na abertura do evento, o deputado Leonardo Monteiro (PT-MG) afirmou que brincar é um ato de sobrevivência humana. “Brincar e jogar são fundamentais para a saúde física e mental, principalmente para estimular a criatividade”, disse.

Já a presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas, professora Nylse Helena da Silva Cunha, destacou a importância dos espaços de brincadeira para dar oportunidade de a criança “mergulhar” em seu brinquedo sem cobrança de desempenho e sem adulto para atrapalhar. Para a especialista, alimentar a inteligência e a criatividade da criança com a brincadeira é tão importante quanto alimentar o corpo com comida.

Nylse citou algumas das funções da brinquedoteca, entre as quais:

- estimular a capacidade de concentração;

- favorecer o equilíbrio emocional;

- dar oportunidade de expressão;

- desenvolver a criatividade, a inteligência e a sociabilidade;

- enriquecer o número de experiências e de descobertas; e

- melhorar o relacionamento com a família.

 

Dificuldade de aprender

Os jogos podem identificar até a dificuldade de aprendizado da criança. A avaliação é da psicopedagoga Sandra Kraft do Nascimento, da Associação Brasileira de Brinquedotecas. Segundo ela, durante a brincadeira é possível observar a capacidade de memorização da criança, suas ansiedades e seus medos, sua forma de lidar com o erro, seu nível de atenção e seu foco nas atividades.

A professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Tânia Ramos Fortuna relatou que, desde 1999, a instituição oferece um curso de extensão universitária para ensinar professores a descobrir o potencial dos brinquedos como técnica pedagógica. “Existe até uma brinquedoteca exclusiva para adultos”, disse.

Tânia falou do desafio de treinar professores na “arte de brincar”. “Mesmo colegas da faculdade de Educação resistem à idéia de usar jogos na atividade pedagógica. O barulho dos nossos brinquedos incomoda”, contou.

Para Tânia, as brinquedotecas, apesar de serem importantes para o desenvolvimento da criança, não podem confinar o direito à brincadeira. Ela criticou as escolas que têm as brinquedotecas como único espaço de brincar para os alunos e que não possuem brinquedos na sala de aula.

 

Falta apoio

A professora de pós-graduação de Psicologia Escolar da Universidade de São Paulo (USP) Edda Bontempo concorda que os professores têm dificuldade de inserir atividades lúdicas no ensino. Segundo ela, esses profissionais não receberam formação para entender o que os jogos ensinam e não têm apoio das direções escolares para incluir brincadeiras em aulas de disciplinas como matemática, física e biologia.

Ainda durante o seminário, o médico Dráuzio Viegas ressaltou a importância das atividades lúdicas para as crianças internadas. Brincar, segundo ele, melhora a qualidade de vida, apesar de não haver comprovação científica de que a brincadeira aumenta o tempo de vida de crianças com câncer ou com outra doença grave.

As brinquedotecas hospitalares, explica o médico, auxiliam no diagnóstico e no tratamento das doenças. “A criança, na brinquedoteca, brinca de dar injeção no boneco, veste-se de enfermeira e, assim, aceita melhor o tratamento”, disse o pediatra, para quem as brinquedotecas oferecem um ambiente mais tranqüilizador e dão oportunidade de as crianças fazerem amizade enquanto estão em tratamento.